sexta-feira, 10 de março de 2017

Livro sobre Mata Ciliar no Rio Purus e lançado 


             Como parte da expertise de alguns docentes da Ufac e sua equipe, mais uma publicação sobre mata ciliar é lançada. Desta vez, o destaque e para o Rio Purus. 
            O livro pretende apresentar os resultados do Projeto de Pesquisa intitulado: "Ciliar Cabeceiras do Purus" trazendo a discussão de duas premissas; a primeira é que o Rio Purus é a primeira barreira à expansão do crescente desmatamento no Acre; e a segunda, é a afirmação de que está nesta vegetação ciliar a solução para o equilíbrio hidrológico do rio. 

            O Projeto Ciliar Cabeceiras do Purus foi aprovado por meio do Edital MCT/CNPq/CT-Agro nº 26/2010 - Reflorestamento em Áreas Degradadas Visando Restauração Ambiental, Serviços Ecológicos e outros usos, Chamada 1 - Propostas Individuais, e contou com orçamento de R$ 100.000,00, sendo seu principal objetivo o diagnóstico da dinâmica florestal presente na mata ciliar do Rio Purus, em especial o trecho que corta as cidades de Sena Madureira (desde a foz do rio Iaco), Manuel Urbano e Santa Rosa do Purus (em direção à sua nascente no Peru), considerado, para efeito dos estudos, como a área de influência da cabeceira. 
        O projeto que teve inicio em 2010 encerrou suas atividades em 2016, sendo a publicação do Livro do Projeto a ultima ação realizada, já no começo de 2017. Com o titulo: "Ciliar Cabeceira: mata ciliar no rio Purus" o livro traz em suas 262 páginas uma ampla discussão sobre a importância da mata ciliar, além de dados sobre a bacia, suas ações e resultados alcançados. 
          O projeto teve como referência sua experiencia anterior no Projeto Ciliar Só-Rio Acre, base para a elaboração e aprovação desta proposta.  Foram 10 dias de expedição para coleta de dados que, assim como projeto referência, apresentou o resultados sobre a composição florestal local, sobre as 20 espécies de maior valor de importância (IVI Mata Ciliar) e a utilização de procedimento metodológico para calculo da Largura Técnica da mata ciliar. 

             O grupo de pesquisadores, liderados pelo professor da UFAC, Dr. Ecio Rodrigues, envolve uma serie de profissionais, entre eles, doutores, mestres, ex alunos e alunos da Universidade que completam uma equipe multiprofissional  com experiencia na área florestal, totalizando em 2017 duas publicações nesta área.

             Para os interessados, a aquisição do livro pode ser feita nas livrarias Paim e Betel, em Rio Branco. Mais informações consulte o blog: http://ciliarcabeceirasdopurus.blogspot.com.br

Alana Chocorosqui Fernandes 
Eng. Florestal e co autora do livro
    

terça-feira, 7 de março de 2017

A sustentabilidade da Amazônia não é opcional
* Ecio Rodrigues
Ainda que seja comum confundir-se o conceito de sustentabilidade com o de estabilidade no crescimento econômico, uma coisa é certa: desde a virada do século XXI que a Amazônia patina na economia, a despeito de ter se afastado da sustentabilidade.
Ou seja, o fato de se comprometer a sustentabilidade da região não tem ajudado a potencializar sua dinâmica econômica. É o pior dos mundos. Cabe esclarecer que, na Amazônia, a opção pela sustentabilidade implica ancorar a economia na exploração da diversidade biológica presente no ecossistema florestal.
Como costumam reiterar administradores e estudiosos que se debruçam sobre a política de desenvolvimento local, a instalação de atividades produtivas voltadas para extrair, industrializar e comercializar as matérias-primas abundantes na floresta promove, por assim dizer, a vocação produtiva regional.
Sem meias palavras, é o seguinte: a cada boi que nasce, a Amazônia se afasta da sustentabilidade; a cada quilo de carne de paca que se produz, a região se aproxima da sustentabilidade.
Essa lógica vale, por suposto, para o produto florestal que atualmente mais emprega e gera riqueza na região: a madeira.
Depois de passar por um ciclo econômico vigoroso na década de 1970, a exploração de madeira tropical amazônica hoje dispõe de tecnologia de manejo florestal apta a garantir uma oferta que, além de ser permanente, é reconhecida como sustentável pelos países compradores.
Abrir mão do potencial econômico representado pela madeira, como defende muitos desavisados, seria um tiro no pé, diante do valor desse produto e do seu significado para a geração de emprego na região. Nenhum produto de origem florestal tem mais capacidade para gerar riqueza que a madeira. Simples assim.
Continuando na mesma lógica – e, nessa altura, manifestando complacência em relação a quem desiste de ler o artigo por discordar do que aqui se escreve –, diga-se que, em face do universo de possibilidades econômicas descortinado pelas sementes e pela fauna silvestre, parece mesmo insano que não se explore esses dois segmentos do setor florestal.
Sementes de árvores e palmeiras amazônicas são nobres não apenas pela beleza, mas sobretudo por sua proficuidade, pela variedade de usos e produtos que podem engendrar. Entre esses usos, a produção de mudas, atividade que movimenta somas inestimáveis no mundo inteiro, talvez seja o mais elementar.
Além de serem utilizadas para fins alimentícios, as sementes se transformam em óleos, que por sua vez podem atender ao mercado de cosméticos ou ser queimados em motores empregados na geração de energia elétrica e no deslocamento das embarcações que transportam cargas e pessoas pela imensidão hidrográfica amazônica.
A fauna silvestre amazônica dispensa apresentação. Seja para a comercialização dos chamados bichos de estimação (papagaio e macacos são os mais cotados) ou para a produção de carne (queixada e paca são os preferidos), o manejo florestal de animais nativos já comprovou ser uma atividade bastante lucrativa.
Essa ladainha não é novidade e muita gente, antes deste artigo, já chamou a atenção para o mesmo prognóstico: a saída para a ocupação produtiva da Amazônia está no uso econômico de sua biodiversidade.
Mas essa saída, sem embargo de apresentar viabilidade econômica inquestionável, só veio a assumiu maior significado depois da Rio 92 e, mais recentemente, com a assinatura (em 2015) do Acordo de Paris. A saída pela biodiversidade se ajusta aos preceitos de sustentabilidade exigidos pelo planeta e pactuado pelas nações.
Por isso a sustentabilidade, para o caso de uma região como a Amazônia, não pode ser opcional. Não há espaço para sacrificar a sustentabilidade em troca de ganhos econômicos decorrentes da expansão do agronegócio. 
Trilhar o caminho da sustentabilidade é vocação inexorável da Amazônia, e não vai ser a criação de boi que vai comprometer esse destino.  

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Inaceitável aumento de 47% no desmatamento no Acre em 2016
* Ecio Rodrigues
Em 2016, o Acre ficou em segundo lugar entre os estados que mais destruíram a floresta na Amazônia, tendo ostentado a taxa absurda de 47% na ampliação do desmatamento.
Difícil acreditar que esse aumento escandaloso se deva à ocorrência de algum fenômeno climático – como é o caso do festejado El Niño, reiteradamente usado para justificar os sucessivos recordes mensais de queimadas ocorridos em 2016.
Apresentando números irrefutáveis, o Inpe, Instituto de Pesquisas Espaciais, calcula que a área desmatada no Acre entre agosto de 2015 a julho de 2016 foi a maior desde 2007.
Simplificando, em especial para os incrédulos, que rechaçam a tese de que a elevação do desmatamento pode não ser um fato isolado, mas sim uma tendência: há praticamente dez anos os produtores do Acre não convertiam uma área tão grande de floresta em plantios de capim, cana-de-açúcar e assim por diante.
Quer dizer, diante dessa perigosa tendência de alta, todos – especialmente os políticos e gestores públicos – deveriam ficar muito preocupados. E não bastasse o desmatamento em si, há mais duas razões que dão azo a muita apreensão.
Em primeiro lugar, essa alta ocorre num momento de retração econômica. Trata-se dum agravante mais que peculiar, uma vez que a economia vibrante da segunda metade da década de 2000 não se compara ao marasmo e à crise dos tempos atuais, quando até o pagamento de salários a servidores públicos é notícia.
Já a segunda razão é ainda mais grave. Acontece que o desmatamento no Acre assumiu uma nova dinâmica – que os órgãos responsáveis pelo monitoramento não conseguem sequer compreender, quanto mais controlar.
Essa nova dinâmica do desmatamento apresenta participação expressiva da pequena e média propriedade rural. E o que é mais preocupante: são propriedades que não se localizam, como antes acontecia, às margens das rodovias (principalmente BR 364 e BR 317).
Comprovado o aumento da participação da agricultura familiar, sobretudo a praticada ao longo dos rios e distante do eixo das rodovias, a conclusão simples é que não adianta investir em ações de fiscalização.
Nenhum poder de polícia estatal, pelo menos na história amazônica, conseguiu chegar até o produtor rural ribeirinho, aquele que vive próximo ou em função de algum rio.
E embora seja mais fácil constatar a ineficiência da fiscalização em relação ao desmatamento nas áreas mais afastadas das rodovias, a experiência demonstra que, a bem da verdade, temos uma dificuldade natural para fiscalizar e multar o produtor menos favorecido. Ou seja, por esse caminho não há chance de sucesso.
Decerto a fiscalização contribui para derrubar momentaneamente a taxa de desmatamento; todavia, só por meio duma política pública que forneça valor e preço à diversidade biológica e que remunere o produtor pela conservação da floresta, será possível uma solução definitiva – isto é, permanente e eficaz.
Desgraçadamente, como dizem os produtores, o Acre abortou a chance de zerar o desmatamento pela via da política florestal quando extinguiu, por razões nunca esclarecidas, a Secretaria Estadual de Florestas.
Uma chance perdida.
  

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.

domingo, 1 de maio de 2016

Fim do verão e do inverno amazônicos desafia resiliência dos rios
* Ecio Rodrigues
Parece que as pessoas ainda não se deram conta dos efeitos decorrentes das mudanças no clima em seu cotidiano. Aqui na Amazônia é possível que o desaparecimento da histórica estacionalidade que sempre dividiu o ano em inverno e verão faça finalmente a ficha cair, como se diz.
Primeiro, é sempre bom reforçar que, na Amazônia, o desmatamento e sua ampliação anual a taxas persistentes e superiores a 5 mil km2 está na raiz de todos os males, em especial no que diz respeito ao aquecimento global.
Significa afirmar, sucintamente, que duas prioridades deveriam ser assumidas pelos gestores públicos como emergenciais: o reflorestamento das áreas já desmatadas e a redução a zero do desmatamento a partir de 2016.
Dito isto, cabe analisar, num despretensioso exercício de presciência, quais poderiam ser as consequências se as duas estações climáticas regionais – denominadas de inverno (alta pluviosidade) e verão (baixa precipitação) – viessem a se confundir, a ponto de a distinção entre ambas não ser mais perceptível.
A palavra-chave, aqui, é “adaptação”.
Como se sabe, existe estreito vínculo entre o comportamento das florestas e as estações do ano, principalmente em função das alterações na oferta de três insumos que as plantas e animais valorizam muito: água, temperatura e luz.
Para usar o exemplo da oferta de luz, diga-se que o fotoperíodo (como preferem os agrônomos) é bem maior durante o verão (que corresponde ao inverno amazônico). Durante esta estação as plantas ficam expostas à luz do sol por um tempo mais longo; por conseguinte, observa-se ampliação da fotossíntese e da produção de flores e frutos, o que, enfim, costuma ser bastante admirado pela fauna silvestre.
Se não mais houver distinção entre o inverno e o verão amazônicos, tanto os humanos quanto a fauna e a flora terão que se adaptar às novas condições climáticas.
Muitos haverão de considerar que a ocorrência de uma única estação climática, durante todo o ano, pode representar maior estabilidade na vazão dos rios e encerrar o ciclo dos traumas relacionados às alagações, como a que aconteceu em 2015.
Enganam-se. A estabilidade na pluviosidade não significa necessariamente o fim de eventos extremos. Ainda que a vazão dos rios se mantenha durante a maior parte do ano em níveis médios, alagações e secas vão continuar acontecendo – uma vez que as causas desses eventos estão vinculadas a fatores como desmatamento, quantidade de carbono jogada na atmosfera, aquecimento do planeta e alterações no clima. 
A palavra chave, nesse caso, é “resiliência”.
Entendendo-se resiliência como a capacidade de o rio retornar ao estágio original depois de sofrer algum tipo de impacto ou pela ocorrência de eventos extremos, pode-se dizer que maior ou menor resiliência representa recuperação rápida ou lenta, respectivamente, após uma alagação ou seca.
A resiliência está diretamente relacionada à vazão do rio e, sobretudo, à quantidade de biomassa florestal presente na mata ciliar. Assim, a taxa de desmatamento evidenciada em determinada bacia hidrográfica irá interferir diretamente na resiliência dos cursos d’água que integram essa bacia.
A adaptação ao fim do inverno e do verão demandará pesquisas sobre a resiliência dos rios e a interação entre água e floresta. Mas isso, hoje, não passa de utopia.


*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Será o fim do inverno amazônico?
* Ecio Rodrigues
Pesquisadores que atuam com climatologia e meteorologia na Amazônia vêm alertando, com mais veemência nos últimos 10 anos, para um fenômeno climático que pode alterar – de forma radical, advirta-se – o cotidiano de quem vive na região: o fim da estacionalidade.
Por estacionalidade entenda-se a divisão do ano em períodos distintos, caracterizados por condições específicas de clima, que vão provocar reações igualmente específicas por parte das plantas e dos animais.
Não é segredo para ninguém que a primavera é a estação das flores; significa que, no ano corrente de 2016, no caso do Brasil, país situado abaixo da linha do equador, a maior parte das plantas deverá florir entre 22 de setembro e 21 de dezembro.
A primavera é a estação que começa após o inverno e cujo término dá início ao verão. O outono, por outro lado, marca o interstício entre o verão e o inverno.
Nas zonas temperadas, onde as estações climáticas são bem definidas, como acontece no Sul do Brasil, o cotidiano é moldado a partir dos impactos causados pelo calor, pelo frio, pela floração das árvores, pela queda das folhas – só para fazer referência a alguma característica marcante de cada estação.
Na Amazônia, todavia, isso não acontece. Como dizem os mais experientes, na Amazônia só há duas estações, a seca e a chuva.
No tempo da completa ausência de infraestrutura, quando a pavimentação de ruas era um luxo desfrutado apenas em metrópoles como Manaus e Belém, dizia-se que essas duas estações eram a da lama e a da poeira.
Mas, a presença de lama e de atoleiros representa apenas uma das faces da “estação das chuvas” – a outra se refere ao aumento da vazão dos rios, que, por sua vez, leva à fartura das cheias, além de importar em melhoria expressiva na beleza cênica da paisagem.
As chuvas também sempre foram associadas à ocorrência de temperaturas mais amenas – por isso, o período das chuvas corresponde ao chamado inverno amazônico.
Seguindo à risca as efemérides das estações do ano, diga-se que em 21 de março último teve início o outono, assinalando-se o fim do verão. Na Amazônia, contudo, esse período costumava marcar o fim do “inverno”, ou seja, a ocasião em que começavam a rarear as chuvas e iniciava-se o “verão”, a época da seca, cujo auge acontecia ente agosto e setembro.
Mas já não é bem assim. Para os cientistas que monitoram as curvas de pluviosidade e a temperatura (para ficar nas principais variáveis), o fim da estacionalidade pode ser uma realidade. Significa afirmar que a distribuição anual das chuvas pode deixar de apresentar as variações que justificavam tanto o inverno quanto o verão amazônicos.
A se confirmar essa hipótese, o que certamente requer a continuidade das pesquisas envolvendo clima, meteorologia e interação entre água e mata ciliar, a vida na região terá que se adequar a alterações que dizem respeito a temperatura, disponibilidade de água, quantidade e intensidade de luz. Tudo agravado por ambiente e clima rigorosos, que não se compadecem dos que moram por aqui.
Será o fim do inverno amazônico? Pode ser. Mas a adaptação às novas condições do clima não será fácil.


*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.

Livro Ciliar Só Rio Acre

Livro Ciliar Só Rio Acre